Mercado Antônio Franco se mantém como ponto de encontro e convivência

O mercado é o primeiro endereço que a aracajuana Gisele Mota Almeida Gomes procura quando pisa novamente em Aracaju. Comissária de voo, ela vive hoje na Irlanda, mas carrega na bagagem afetiva um roteiro que não muda: rever a família e sentar-se à mesa do Mercado Municipal Antônio Franco, que celebra 100 anos neste domingo, 8 de fevereiro. Foi assim, ao lado da mãe e do padrasto, durante um almoço tranquilo, que ela voltou a se conectar às próprias raízes, como quem reconhece no sabor e no ambiente uma extensão da própria casa.

“Eu gosto muito de vir ao mercado. Gosto de sentar, de comer, adoro tapioca. Aqui a gente pode ficar lá dentro, onde tem música, ou aqui fora. Vêm pessoas do mundo inteiro, principalmente para comprar artesanato, que é muito bom, por sinal, e combina com o mercado. Esse clima, todo mundo junto, é algo que me encanta. Eu também gosto muito das pessoas: são educadas, gentis. Agora mesmo, por exemplo, um rapaz se ofereceu para juntar a mesa, conversou, perguntou se estávamos bem acomodados. São essas pequenas coisas que fazem a diferença. Isso é muito bom. Eu gosto da nossa cultura acolhedora, algo que, muitas vezes, a gente não encontra lá fora”, disse.

O Mercado Antônio Franco é, para muitos aracajuanos, mais do que um conjunto de corredores e bancas. É uma espécie de sala de estar coletiva, onde o dia começa cedo, com o café dividido entre conhecidos e desconhecidos, segue no ritmo dos almoços demorados e se estende em encontros que nem sempre precisam de motivo. Em meio ao vai e vem, o mercado se apresenta também como um dos primeiros marcos visitados por quem chega à cidade. Turistas atravessam seus portões em busca de lembranças, mas acabam encontrando algo maior: a gastronomia afetiva, os pratos típicos servidos sem pressa, o descanso à sombra, a conversa que nasce espontânea entre uma mesa e outra.

Essa convivência atravessa gerações. O aposentado Gilberto dos Santos mantém o hábito de frequentar o mercado ao lado da esposa, Renata, e da filha, Tereza Izabel. Para ele, voltar ao Antônio Franco é reencontrar uma Aracaju que acolhe sem distinção, onde cada refeição também conta uma história. “Eu frequento junto com a minha família, porque às vezes é muito assim, bem à vontade, bem arejado. A gente vê todo mundo, toda classe e todo mundo que a gente sempre abraça. Não só a classe alta, e sim do pequeno, médio. Hoje pedi uma mariscada, que é muito gostosa”, disse.

As memórias que se formam ali não pertencem apenas a quem nasceu na capital. A experiência dos visitantes também se mistura à identidade do mercado centenário. Paulino Ferreira da Silva, agente comunitário de saúde, natural de Queimadas, na Bahia, caminhava entre as bancas com o olhar de quem descobre um lugar e, ao mesmo tempo, sente-se parte dele.

“O mercado aqui é ótimo, o pessoal atende a gente muito bem, nos conforta, nos dá segurança, a gente se sente seguro. É o que a gente realmente esperava, a nossa expectativa foi superada. O mercado é um espaço que a gente tem tudo, onde a gente conhece pessoas de todos os lugares, principalmente do Nordeste. E temos que destacar com orgulho que somos nordestinos. Para nós o mercado é nota mil, principalmente o povo agradável, o povo atencioso, que é o que mais a gente se sente feliz”, disse o turista Paulino Ferreira.

Para ele, a boa receptividade é essencial. “Uma pessoa quando sai de um município vai para outro, quando você é bem recebido, você se sente bem. E aqui fomos muito bem recebidos. O que eu mais achei interessante foi as pessoas, a gente conhece as pessoas em uma hora a gente já parece conhecer aquela pessoa há anos. Isso é bom. Nos aproxima cada dia mais. A gente sai daqui com a vontade de voltar. Já temos a data para voltar novamente”, disse.

Com 100 anos de histórias, o Mercado Antônio Franco segue vivo porque é atravessado diariamente por quem trabalha, cria, vende, toca, cozinha, conversa. São pessoas que conhecem cada som e cada cheiro do lugar, que acompanham as manhãs de montagem das bancas, os horários de maior movimento, o cair da tarde que transforma o mercado em ponto de descanso.

Entre corredores, o artesanato se espalha em cores e texturas: rendas, bordados, peças em palha, madeira, cerâmica, tecidos, lembranças que carregam o gesto manual de quem faz. Em meio a isso, surgem também as figuras que dão ritmo ao espaço, levando música para todo o complexo, transformando o cotidiano em cena.

É o caso do artista de rua Vanilson Barros Andrade, conhecido como Cabeça de Galo. Com zabumba, pandeiro, uma caixinha de som e um microfone, ele percorre o mercado espalhando animação. Sua história com o Antônio Franco começou em 1992, quando ainda era comerciante. Depois, a música ganhou espaço e passou a conduzir seus dias.

“Eu acho que isso aqui é o lugar mais importante porque é o centro de tudo. Quem vem a Aracaju tem que vir no mercado. Tem que vir comprar amendoim, comprar o caranguejo, tem que vir comprar castanha, comer moqueca, o sarapatel, ou tomar um licor. E a importância daqui é fundamental. Eu acho que aqui é o centro da cultura sergipana”, disse o artista.

Hoje, o Mercado Antônio Franco reúne 186 permissionários e abriga uma diversidade de empreendimentos que ajudam a compor sua paisagem humana: armarinhos, confecções, setor de discos e livros, ferragens, barbearias, lanches, sorvetes, mercearias, restaurantes, serviços de beleza, além da venda de vinhos e frios. O artesanato ocupa um lugar especial nesse cenário. São, ao todo, 63 espaços dedicados a essas produções, seguidas por 19 barbearias e 14 restaurantes. O percurso entre esses espaços quase sempre termina entre linhas, tecidos e lembranças, onde mãos experientes seguem tecendo histórias.

Entre elas estão as de Joelilde Santos de Moura, 66 anos. Ela começou a trabalhar no mercado no início dos anos 80. Com mobilidade reduzida e alguns problemas de saúde, já não consegue fazer grandes produções, mas as mãos continuam firmes no retoque final das peças. Sentada em sua loja, com uma passadeira sobre o colo, daquelas que ocupam o centro da mesa de jantar, dona Joelilde ajeitava os últimos detalhes. O mercado moldou sua vida. Foi ali que criou dois filhos, um deles já falecido. Ao falar do primogênito, que trabalhava em uma loja em frente à sua, a emoção interrompeu o ritmo das palavras. É no Mercado Antônio Franco que ela preserva, todos os dias, a memória do filho que se foi. “Estou doente, mas continuo trabalhando. Quando olho para a frente…”, começou, com a voz embargada.

 “Os turistas gostam muito do atendimento, gostam muito do material das minhas mercadorias”, frisou, ao falar das dificuldades enfrentadas. “Mesmo assim, todo dia eu estou aqui, em nome de Jesus”, acrescentou dona Joelilde. “Feliz de nós por termos o nosso negócio aqui no mercado. Ele é a nossa vaquinha de leite, é o nosso sustento diário. Sem ele, nós não conseguimos ficar. Aqui não temos empregados, somos nós mesmos que vimos todos os dias e fazemos o que podemos. Por isso, agradecemos muito a Deus”, concluiu.

Foto: Ronald Almeida/Secom PMA