Google, Inteligência Artificial e Bibliotecas digitais e físicas: por que ainda precisamos dos livros?

A expansão da internet e o desenvolvimento da Inteligência Artificial transformaram profundamente a maneira como pesquisamos. Hoje, em poucos segundos, encontramos artigos, documentos, mapas, imagens e respostas para as mais diversas perguntas. Nunca foi tão fácil acessar informação, esse é, sem dúvida, um dos maiores avanços da nossa época.

Mas rapidez não é sinônimo de aprendizagem, da mesma forma, acumular informações não significa produzir conhecimento, pois há uma diferença importante entre informação e conhecimento. O filósofo estadunidense Mortimer J. Adler, em “Como ler livros: o guia clássico para a leitura inteligente”, chamou atenção para isso ao distinguir a leitura meramente informativa daquela que exige análise, interpretação e diálogo com o autor. Um livro não serve apenas para transmitir dados; ele convida o leitor a examinar argumentos, comparar ideias e construir um juízo próprio, é exatamente deste exercício de reflexão que se converte em processo que o verdadeiro conhecimento nasce (ADLER; VAN DOREN, 2010).

Essa percepção encontra respaldo nas pesquisas da neurocientista Maryanne Wolf, que demonstra que a leitura não é uma capacidade inata do cérebro humano, mas uma habilidade construída. Em “O cérebro no mundo digital”, Wolf observa que diferentes formas de leitura mobilizam processos cognitivos distintos. A leitura rápida, típica das telas, favorece a localização de informações e a consulta de referências; já a leitura profunda estimula memória, interpretação, empatia, pensamento crítico e a capacidade de estabelecer relações entre diferentes ideias (WOLF, 2019). Em diálogo com essas pesquisas, o escritor Nicholas Carr argumenta que o ambiente digital tende a incentivar uma leitura fragmentada e descontínua, reduzindo o tempo de atenção dedicado a textos longos e argumentos complexos (CARR, 2011).

Isso, evidentemente, não significa que um suporte seja superior ao outro. O livro digital democratizou o acesso ao conhecimento, hoje é possível carregar centenas de obras em um único aparelho, pesquisar palavras instantaneamente, consultar dicionários e acessar bibliotecas espalhadas pelo mundo. Para estudantes e pesquisadores, trata-se de uma ferramenta extraordinária. Ao mesmo tempo, como observa o historiador Roger Chartier, a história da leitura demonstra que uma tecnologia não elimina necessariamente a anterior. O manuscrito não desapareceu com a imprensa, assim como o livro impresso não desapareceu com o surgimento das telas. O que muda são as práticas de leitura, as formas de circulação do conhecimento e a maneira como nos relacionamos com os textos (CHARTIER, 1999). O livro físico, por sua vez, continua oferecendo uma experiência própria. Sua materialidade ajuda muitos leitores a manter a concentração, compreender a organização da obra e estabelecer uma relação mais duradoura com o texto. Não se trata de nostalgia, mas do reconhecimento de que diferentes suportes favorecem diferentes experiências de leitura.

Quem frequenta bibliotecas conhece uma situação que dificilmente ocorre em uma pesquisa feita apenas por mecanismos de busca, que é entrar procurando um único livro e sair com vários outros, encontrados quase por acaso. Na Ciência da Informação, esse fenômeno é conhecido como “serendipidade”. Muitas pesquisas acadêmicas começaram justamente por essas descobertas inesperadas, quando uma obra remete a outra, um autor conduz a um novo problema e uma simples consulta transforma completamente os rumos da investigação. Já os algoritmos tendem a apresentar resultados relacionados ao nosso histórico de buscas, a biblioteca portanto frequentemente faz o contrário, ao ampliar nosso horizonte intelectual, colocando diante de nós autores, temas e perspectivas que talvez jamais tivéssemos pensado em procurar.

É por isso que bibliotecas continuam existindo nas maiores universidades do mundo. Elas não sobrevivem por tradição ou romantismo, mas porque exercem funções que nenhuma ferramenta digital consegue desempenhar sozinha. Preservam a memória escrita, organizam o conhecimento, garantem acesso gratuito a obras muitas vezes indisponíveis no mercado e oferecem um ambiente propício ao estudo. Como lembram Luís Milanesi, em “A casa da invenção”, e Bernadete Campello, em seus estudos sobre letramento informacional, a biblioteca é uma instituição educativa, responsável pela formação de leitores autônomos e pelo desenvolvimento da cidadania (MILANESI, 1997; CAMPELLO, 2009). Uma biblioteca não é um depósito de livros, é um lugar onde a informação encontra tempo para se transformar em conhecimento.

Sua função social é igualmente indispensável. Muitas bibliotecas conservam obras raras ou esgotadas que sequer existem em formato digital, e ainda obras que foram esquecidas dos círculos de leitura e que apresentam grande valor. Além disso, representam a única possibilidade de acesso à leitura para milhares de pessoas que não dispõem de recursos para adquirir livros ou equipamentos eletrônicos. Defender bibliotecas é defender o acesso democrático ao conhecimento, à cultura e à educação.

Frequentemente bibliotecas públicas municipais se encontrar com infiltrações, exposição do acervo a humidade, prateleiras enferrujadas, espaços inadequados para leituras, dentre outros desafios que nos fazem questionar e cobrar a atuação do poder público. Os políticos que não promovem assistência devida às bibliotecas são aqueles que nunca precisaram de uma. Costumam ser indiferentes para com aqueles que precisam porque sabem que não votariam neles, então preferem promover a cultura da ignorância para se manterem no poder.

Google, Inteligência Artificial, livros digitais e livros impressos não são adversários. Cada um possui sua importância. A tecnologia nos ajuda a localizar informações com rapidez. Os livros, sejam eles físicos ou digitais, permitem compreendê-las em profundidade. E a biblioteca reúne essas possibilidades em um mesmo espaço, oferecendo algo que nenhuma tecnologia consegue substituir: o tempo da leitura, da reflexão e da descoberta.

A Inteligência Artificial responde perguntas. O Google localiza documentos. Mas nenhuma tecnologia substitui o exercício intelectual de ler uma obra inteira, confrontar autores, rever convicções diante de um argumento consistente ou descobrir, quase por acaso, um livro capaz de mudar os rumos de uma pesquisa. Como adverte Nicholas Carr, velocidade de acesso à informação não deve ser confundida com profundidade de compreensão (CARR, 2011). Enquanto houver pessoas dispostas a aprender dessa maneira, as bibliotecas físicas continuarão tendo razão de existir.

– Sami França é graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Acadêmico em Filosofia (UFS) e Técnico em Administração (SENAI). Ocupa a 35° cadeira da Academia Estanciana de Letras (AEL), é escritor e pesquisador da história do protestantismo no Brasil, com ênfase em Estância-SE, e práticas de racialização, além de poeta amador, desenhista e documentarista independente no YouTube.

Referências:

- ADLER, Mortimer J.; VAN DOREN, Charles. Como ler livros: o guia clássico para a leitura inteligente. São Paulo: É Realizações, 2010.

- CAMPELLO, Bernadete Santos. Letramento informacional: função educativa do bibliotecário na escola. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

- CARR, Nicholas. A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011.

- CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: UNESP, 1999.

- MILANESI, Luís. A casa da invenção: biblioteca, centro de cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 1997.

- WOLF, Maryanne. O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era. São Paulo: Contexto, 2019.

Texto Sami França – foto arquivo pessoal