Aracaju consolida grupos reflexivos no combate à violência contra a mulher

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, quatro mulheres são mortas por dia no Brasil em decorrência da violência doméstica.

É diante desse cenário alarmante que a Prefeitura de Aracaju vem consolidando uma política pública permanente voltada à quebra do ciclo da violência contra a mulher. Por meio da SerMulher, o município realiza encontros de grupos reflexivos com homens autores de violência, que acontecem na Sala Azul, espaço criado pela gestão municipal para acolher, promover diálogo e incentivar mudanças de comportamento.

Os grupos funcionam como um ambiente de escuta, orientação e responsabilização. Durante os encontros, os participantes são estimulados a refletir sobre temas como violência contra a mulher, cultura do machismo, gerenciamento das emoções, comunicação não violenta e autorresponsabilidade. A iniciativa, desenvolvida em Aracaju a partir de 2014 pelo Tribunal de Justiça de Sergipe (TJ/SE), apresenta resultados expressivos: a reincidência, que antes girava em torno de 60%, caiu para 6,7%, de acordo com o recorte histórico desde a implantação do projeto na capital.

Para a secretária da SerMulher, Elaine Oliveira, transformar os grupos reflexivos em política pública permanente é resultado de um olhar sensível da prefeita Emília Corrêa para a proteção das mulheres e para a prevenção da violência. “A SerMulher está sendo essa ponte para trazer esses homens a refletirem sobre os seus atos. Com o grupo, nesse primeiro momento, conseguimos entender e identificar cada vez mais como podemos avançar, para atingir mais homens e conscientizar cada vez mais sobre a violência doméstica”, explicou.

Ela também destacou que a Sala Azul nasce como um símbolo de corresponsabilidade social. “A Sala Azul surge da ideia de que toda a sociedade é responsável pelo enfrentamento à violência. Ela vem para fortalecer esse entendimento. Nós compreendemos que os homens também precisam estar junto com as mulheres para que possamos acabar definitivamente com esse mal, que é o feminicídio. Não é uma luta só das mulheres, é uma luta de todos”, completou Elaine Oliveira.

A coordenadora da Coordenadoria Executiva de Enfrentamento e Combate à Violência contra a Mulher da Secretaria Municipal da Segurança e Cidadania, Luciana Ribeiro, explica que o percurso dos grupos é estruturado em etapas. Ao todo, são realizados 12 encontros ao longo de aproximadamente três meses. “O primeiro momento é uma entrevista individual com cada participante. Depois seguimos um cronograma, trazendo principalmente a Lei Maria da Penha, mostrando que a mulher tem direitos, assim como o homem, e que todos precisam viver sem violência”, relatou.

Segundo ela, um dos pontos centrais do processo é ampliar a compreensão sobre o que é violência. “Muitas vezes eles associam violência apenas à agressão física. Durante os encontros, mostramos que existe violência psicológica, sexual, moral e patrimonial. Ao longo desses três meses, eles passam a estar conosco no grupo reflexivo, e já conseguimos perceber resultados pelas falas e pelos relatos, quando começam a reconhecer que a violência psicológica, por exemplo, atinge profundamente a mulher. Ao final, esperamos um resultado muito positivo, e os indícios já aparecem ao longo do processo”, afirmou.

Um dos participantes do grupo, identificado pelas iniciais G.S.L., contou que a experiência tem provocado mudanças importantes em sua forma de pensar e agir. “Elas ensinam muita coisa que a gente não sabia. Eu mesmo cheguei aqui meio durão, mas aqui é diferente, é uma coisa boa. A gente aprende como se comportar com a mãe, com o filho, com a esposa, com os netos. Estou saindo daqui ensinando também, dando conselho aos outros, para respeitar primeiramente as mulheres, as filhas, os filhos, respeitar todo mundo. A gente não pode ser agressivo com as mulheres. Isso é violência. Hoje eu entendo isso e sei que não podemos ser assim”, disse.

Início e metodologia

A metodologia dos grupos reflexivos tem origem nos anos 1970, nos Estados Unidos e no Canadá, e se expandiu para diversos países, até chegar ao Brasil, com experiências pioneiras em São Paulo. Em Sergipe, a iniciativa foi idealizada pelo professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e psicólogo João Paulo Feitosa, sendo implantada em parceria com o TJ/SE em 2014. Ele atua há anos com terapia cognitivo-comportamental, especialmente junto a pessoas em situação de vulnerabilidade, mulheres vítimas de violência e autores de agressões.

“Com essa parceria com a Justiça, a partir de um contrato institucional, acolhemos mais de 600 homens autores de violência. São pessoas que passaram por delegacia, tiveram processos judiciais, e uma das medidas aplicadas pelos juízes foi o encaminhamento para os grupos reflexivos, em vez de punições que não têm utilidade pedagógica”, explicou. Segundo ele, o trabalho vai além do cumprimento de uma medida judicial. “Nós trabalhamos temas fundamentais: legislação, direitos humanos, relações familiares, emoções, comportamentos, resolução de conflitos, negociação e formas saudáveis de se posicionar. Tudo isso visando saúde emocional, equilíbrio, bem-estar e acolhimento. O objetivo é promover transformação social”, reforçou.

A psicóloga da Coordenadoria da Mulher do TJ/SE, Sabrina Duarte, lembra que a iniciativa começou como projeto de extensão universitária e enfrentou desafios ao longo do tempo, como a rotatividade acadêmica. Diante disso, o Tribunal passou a estruturar parcerias com municípios, levando os grupos para cidades como Lagarto, Nossa Senhora do Socorro, Itabaiana, entre outras. Atualmente, Sergipe conta com 24 grupos reflexivos.

“O grupo reflexivo é uma metodologia ativa. É um espaço para que esse homem interaja, inclusive com outros homens, e reflita sobre sua postura, sobre seus atos, sobre sua forma de pensar. É uma atividade dinâmica, onde eles falam, são estimulados a falar. A ideia não é chegar e ensinar, de forma didática. A proposta é provocar reflexão. Para refletir, eles precisam dizer o que pensam, o que acreditam, para então mudar a postura, que é o principal intuito dos grupos. “Há pesquisas que mostram que, às vezes, o homem não muda totalmente a forma de pensar, mas muda a postura. E isso, para nós, já é um ganho significativo”, explicou.

Sabrina também reforçou os dados que comprovam a efetividade da metodologia. “Segundo a literatura, entre 55% e 65% dos homens que agridem e não passam por um processo reflexivo reincidem. Quando participam dos grupos, esse índice despenca. Esses 6,7% são de um acompanhamento específico, com mais de 500 homens que já passaram pelos grupos. É um resultado muito expressivo”, afirmou.

A psicóloga fez um alerta sobre a urgência do enfrentamento à violência contra a mulher. “A partir do momento em que uma mulher é morta, isso já é motivo de alerta. Em Sergipe, vínhamos registrando queda nos índices desde 2021, mas 2025 fechou com aumento, o que acende um sinal vermelho. Foi um crescimento em torno de 50%. Então, quando uma mulher morre por feminicídio, já é grave. Quando são quatro por dia, é ainda mais alarmante”, concluiu.

Foto AAN