Dia das Mães: Saúde mental materna ganha atenção especial no Hama

O choro de um recém-nascido costuma anunciar felicidade. Mas, junto com ele, também chegam medos, inseguranças, mudanças bruscas na rotina e um turbilhão de sentimentos que nem sempre cabem nas fotografias felizes das redes sociais. Neste Dia das Mães, celebrado em meio à campanha ‘Maio Furta-Cor’, movimento nacional de conscientização sobre a saúde mental materna, o Hospital da Mulher e Maternidade Lourdes Nogueira (Hama) chama atenção para uma realidade muitas vezes silenciosa: a maternidade também pode ser atravessada por vulnerabilidades emocionais e sofrimento psíquico.

Psicóloga da unidade, Maria Regina Oliveira explica que o ‘Maio Furta-Cor’ surge para romper com a romantização da maternidade e ampliar o olhar sobre as transformações emocionais vividas pelas mulheres durante o puerpério. “A maternidade é um mundo de possibilidades. Quem vivencia a maternidade não vivencia de um modo só. Não são apenas mudanças físicas, mas emocionais e psicológicas também”, afirma. Segundo ela, sentimentos como tristeza, medo e insegurança podem surgir nos primeiros dias após o parto, especialmente diante das alterações hormonais, da privação de sono e da fragilidade da rede de apoio.

A psicóloga explica que muitas mulheres vivenciam, logo após o nascimento do bebê, oscilações emocionais conhecidas como “baby blues”, caracterizadas por episódios de choro, sensibilidade excessiva, tristeza e insegurança. “Quando esses sentimentos acontecem nos primeiros dias e vão embora sozinhos, a gente considera essa tristeza dita normal da maternidade”, explica. No entanto, ela alerta que é necessário atenção quando os sintomas se intensificam ou persistem por semanas.

“Quando a tristeza e o isolamento não vão embora sozinhos, é necessário ficar em alerta e buscar ajuda. Porque isso é mais comum do que muitos imaginam”, ressalta Maria Regina. Em razão disso, a profissional destaca a importância do diagnóstico precoce da depressão pós-parto. Segundo ela, mulheres com histórico anterior de depressão ou outros transtornos psíquicos precisam de acompanhamento ainda mais atento durante o puerpério.

“Muitas vezes todo mundo volta as atenções para o bebê, mas a mulher é esquecida”, observa a psicóloga. Para ela, acolher emocionalmente a mãe é tão importante quanto garantir os cuidados clínicos ao recém-nascido. “Às vezes está difícil, está dolorido, mas a mulher escuta que deveria estar feliz o tempo inteiro. A gente precisa trabalhar a maternidade real, não há maternidade idealizada, onde tudo deve ser perfeito a todo momento”, salienta Márcia.

As histórias das puérperas atendidas no Hama revelam justamente essa maternidade possível, construída entre desafios, descobertas e afeto. Mãe da pequena Ayla, Monique de Oliveira conta que a gravidez não foi planejada e que, inicialmente, a notícia trouxe medo e insegurança. “Foi um choque, porque não era algo planejado. Eu tomava injeção, me cuidava, então demorei um pouco para aceitar. Mas depois, conversando com meu marido e com minha família, fui entendendo tudo e fui me permitindo viver esse momento. A rede de apoio foi muito importante para mim, porque sozinha teria sido muito mais difícil”, relata.

Agora, com a filha nos braços, ela afirma viver um dos momentos mais felizes da vida. “Hoje eu já me sinto completa. É meu segundo Dia das Mães, mas agora tem um sabor ainda mais especial. Quero trabalhar, dar o melhor para meus filhos e construir tudo junto deles. É um sonho”, afirma. Sobre o atendimento recebido na maternidade, Monique destaca o acolhimento da equipe durante todo o processo. “Eu estava muito nervosa antes do procedimento, mas conversaram bastante comigo, me tranquilizaram, e isso fez toda diferença. Depois do parto, eles continuam olhando para a gente, aconselhando, se preocupando. Isso é muito importante”, avalia.

Já Yasmin Vitória viveu uma maternidade atravessada pela prematuridade da filha Aysha, que precisou passar pela Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN). Entre dias de apreensão e esperança, ela descobriu uma força que desconhecia em si mesma. “Minha filha nasceu prematura, muito pequenininha, e não foi fácil vê-la na UTIN. Mas cada grama que ela ganhava de peso era uma felicidade para mim. Foi nesse momento que percebi uma força que eu nunca imaginei ter”, conta.

Segundo Yasmin, a maternidade real está muito distante das imagens idealizadas frequentemente vistas nas redes sociais. “As pessoas acham que ser mãe é fácil, mas não é. A gente precisa dar o melhor para o filho o tempo inteiro. Às vezes está triste, quer chorar, mas segura tudo porque pensa no bebê. Essa força ninguém mostra na internet. Só quem é mãe entende de verdade”, afirma a puérpera. Yasmin também destaca o acolhimento recebido durante a internação da filha. “Minha rede de apoio me ajudou muito, mas as meninas daqui também ajudaram demais. É muito gratificante ver o carinho que elas têm pelos nossos bebês.”

A experiência da maternidade também transformou a vida de Geiza Mendes, mãe do pequeno Arthur, nascido prematuro e internado na UTI neonatal devido a complicações respiratórias. “As pessoas acham que depois da gravidez tudo vira um mar de rosas, mas não é assim. É uma fase desafiadora, porque é uma nova adaptação e uma nova responsabilidade. Depois que tive ele, percebi que não era nada daquilo que a internet mostra. Ninguém posta a parte difícil de passar 24 horas cuidando, preocupada, sem dormir”, relata.

Entre o medo e a esperança, Geiza acompanhou cada avanço do filho até o momento em que finalmente pôde segurá-lo nos braços no seu primeiro Dia das Mães. “Ele ficou entubado, passou dias na UTI neonatal, então foi muito difícil para mim. Hoje ele já está nesse processo de adaptação para ir para casa, aprendendo a mamar e evoluindo cada dia mais. Era o que eu mais pedia a Deus, ter meu filho nos meus braços no Dia das Mães”, afirma emocionada.

Para Márcia Regina de Souza, que também celebra neste domingo o primeiro Dia das Mães ao lado do pequeno João, a maternidade chegou como a realização de um sonho antigo. “O João foi muito desejado. É uma fase difícil, porque o pós-parto é dolorido e traz muitas responsabilidades, mas também é o maior presente que eu poderia receber”, conta.

Márcia diz que o nascimento do filho transformou completamente a forma como enxerga a própria vida. “Ele chegou como presente de aniversário e do Dia das Mães. É um amor incondicional, não tem como explicar. Estou muito feliz mesmo”, afirma.

Durante a internação, Márcia diz que encontrou apoio tanto na família quanto na equipe da maternidade. “Minha cunhada ficou comigo como acompanhante e me apoiou o tempo inteiro. Aqui também me senti muito acolhida. Em breve irei para casa sabendo que minha mãe e toda minha família estão esperando para cuidar de mim e do meu filho”, conta.

Ao ouvir relatos tão diferentes, mas atravessados pelas mesmas vulnerabilidades, a psicóloga Maria Regina reforça que não existe maternidade perfeita. Existe a maternidade real, construída entre descobertas e reconstruções diárias.

“O parto não transforma apenas a vida de um bebê que chega ao mundo, mas também de uma mulher que, aos poucos, aprende a existir em uma nova versão de si mesma. Entre noites sem dormir, inseguranças, e afetos, a maternidade vai sendo construída no cotidiano, longe das perfeições imaginadas e mais próxima da vida real”, destaca a psicóloga.

Foto: Ronald Almeida/Secom/PMA