O que se sabe sobre pancreatite associada a canetas emagrecedoras? Dr. Márcio Passos explica

O aumento do uso de medicamentos à base de incretinas — como Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida) — para diabetes tipo 2 e, em alguns casos, obesidade, trouxe também maior atenção para eventos adversos raros, entre eles a pancreatite aguda. As bulas aprovadas pelo FDA (agência reguladora dos EUA) trazem alerta explícito: casos de pancreatite, inclusive graves, foram observados com agonistas de GLP-1 (classe da semaglutida) e também com a tirzepatida; e a recomendação é suspender o medicamento se houver suspeita e iniciar manejo clínico adequado.

Em entrevista, Dr. Márcio Passos, médico nutrólogo e CEO do Instituto Ádamus em Aracaju, explica o que está confirmado, e o que ainda está em debate.

"Existe alerta oficial e orientação prática. Tanto o rótulo do Ozempic quanto o do Mounjaro descrevem sinais compatíveis (como dor abdominal intensa e persistente, por vezes irradiando para as costas, com ou sem vômitos) e orientam interromper o uso e procurar avaliação médica se houver suspeita", explica Dr. Márcio.

O evento é considerado raro, mas vem sendo monitorado. "Uma revisão clínica recente reforça que estudos iniciais sinalizaram um possível aumento pequeno de risco, e que o tema segue em vigilância, especialmente com a expansão do uso na população", destaca.

Ensaios e meta-análises não mostram um "padrão" forte de aumento grande de risco — mas a incerteza permanece por ser um evento incomum. "Uma meta-análise (2025) com ensaios randomizados encontrou, no conjunto, sinal de risco apenas discreto e com limitações quando há muitos estudos com "zero eventos" (o que dificulta estimar o risco real). Em um estudo publicado no New England Journal of Medicine (2025) comparando tirzepatida e semaglutida, houve caso confirmado de pancreatite no grupo semaglutida e nenhum caso confirmado no grupo tirzepatida — um achado que, por ser raro, não encerra a discussão, mas ajuda a dimensionar a frequência baixa no contexto de pesquisa clínica", informa.

Reguladores europeus também reforçaram a vigilância. "No Reino Unido, a MHRA atualizou comunicações chamando atenção para um pequeno risco de pancreatite com medicamentos baseados em GLP-1, recomendando atenção aos sintomas e notificação de eventos suspeitos. Especialistas apontam que a pancreatite tem múltiplas causas (como cálculos biliares, álcool, hipertrigliceridemia e outras condições). No caso das "canetas", além de mecanismos ainda investigados, existe um ponto prático: esses medicamentos podem se associar a eventos de vesícula biliar em alguns pacientes, e problemas biliares podem, por si, precipitar pancreatite. A própria bula de tirzepatida também alerta para doença aguda da vesícula", explica.

A pancreatite é um evento raro, mas potencialmente grave. Por isso, quem usa semaglutida ou tirzepatida precisa conhecer o principal sinal de alerta: dor abdominal forte e persistente, que pode irradiar para as costas, com ou sem náuseas e vômitos.

"Se surgir suspeita clínica, a orientação é interromper a medicação e procurar atendimento. Não é um tipo de sintoma para esperar passar. É importante lembrar que diabetes e obesidade já aumentam o risco basal de algumas complicações. O papel do médico é individualizar: avaliar histórico, fatores de risco — como vesícula, triglicerídeos e consumo de álcool — e acompanhar o paciente de perto, especialmente na fase de ajuste de dose", reforça Dr. Márcio.

"Medicamentos como esses têm benefícios bem estabelecidos para muitos pacientes, mas devem ser usados com indicação correta, acompanhamento e segurança, sem banalização", finaliza.

Fonte: Rodrigo Alves Assessoria de Imprensa e Marketing. Foto: divulgação.