"Todos os crimes se encontram na lavagem de dinheiro", diz senador Alessandro Vieira no Roda Viva

O senador Alessandro Vieira (MDB/SE) afirmou, em entrevista ao Roda Viva, na segunda-feira (02), que o combate ao crime organizado no Brasil exige foco no financiamento das organizações criminosas e na infiltração dentro do próprio Estado. Relator da CPI do Crime Organizado no Senado, o parlamentar defendeu uma atuação técnica, que alcance tanto as facções que atuam na ponta quanto os esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro e corrupção.

"Todos os crimes se encontram na lavagem de dinheiro. O crime organizado de verdade depende fundamentalmente de infiltração no Estado e de ferramentas para lavar recursos", afirmou. Segundo ele, a CPI tem buscado fazer uma "radiografia do crime no Brasil", ouvindo especialistas e avançando sobre fluxos financeiros que podem conectar facções, milícias, narcotráfico e corrupção institucional.

Ao comentar o caso envolvendo o Banco Master, citado durante o programa, Alessandro classificou o episódio como um exemplo didático de como o crime organizado opera em camadas mais complexas. "Nada de crime organizado sobrevive sem ter infiltração e tolerância do Estado. Isso vale para a facção na periferia e vale para quem atua no mercado financeiro", disse. O senador ressaltou que a CPI não faz acusações antecipadas, mas busca acesso a dados e relatórios de inteligência financeira para esclarecer fatos relevantes.

O parlamentar também criticou decisões judiciais que suspenderam quebras de sigilo aprovadas pela comissão. Para ele, há uma blindagem histórica em relação a integrantes da cúpula do Judiciário. "O Brasil só vai ser uma democracia de verdade quando todo mundo for igual debaixo da lei. Hoje não é assim", declarou, acrescentando que investigações envolvendo autoridades de alto escalão enfrentam obstáculos que não se repetem em outros níveis da República.

Outro ponto abordado foi o PL Antifacção. Alessandro explicou que o Senado aprovou por unanimidade uma versão mais robusta do texto, com foco no financiamento das organizações criminosas, no combate à lavagem de dinheiro e na responsabilização de estruturas que operam no chamado "andar de cima". Segundo ele, alterações promovidas posteriormente enfraqueceram o alcance da proposta. "É mais fácil fazer discurso contra o bandido da ponta. Difícil é enfrentar quem financia, quem lava dinheiro e quem se infiltra no poder público", afirmou.

Durante a entrevista, o senador também tratou do crescimento das apostas esportivas online. Ele classificou as bets como um problema de saúde pública e defendeu maior controle e fiscalização do setor, inclusive como forma de impedir que essas plataformas sejam utilizadas para movimentação de recursos ilícitos.

Alessandro ainda cobrou mais empenho institucional no enfrentamento ao crime organizado. "Falta vontade política. Não basta ter legislação; é preciso aplicar a lei com rigor, integrar as instituições e romper a tolerância histórica com quem tem dinheiro e conexões", afirmou. Para ele, o país vive uma "janela de oportunidade" para avançar em transparência e responsabilização. "A nossa luta é para romper essas barreiras e fazer o Brasil funcionar como uma verdadeira República, onde ninguém esteja acima da lei", concluiu.

Por Laisa Bomfim - Foto Nadja Kouchi