Reserva das Mangabeiras ganha nova regulamentação e fortalece catadoras na gestão do território

Símbolo de resistência e preservação ambiental em plena zona urbana de Aracaju, a Reserva Extrativista Mangabeiras passa por uma nova fase. A atualização do decreto que regulamenta a unidade, assinada em março pela prefeita Emília Corrêa, atende a uma demanda histórica da comunidade ao garantir às catadoras de mangaba voz ativa na gestão e no futuro do território.

Segundo a secretária municipal do Meio Ambiente, Emília Golzio, as reservas extrativistas são áreas de conservação que conciliam proteção ambiental e uso sustentável dos recursos naturais por populações tradicionais. Nesses espaços, a exploração ocorre de forma equilibrada, permitindo a regeneração dos recursos e assegurando, ao mesmo tempo, geração de renda e preservação cultural.

No caso da Reserva das Mangabeiras, localizada no bairro 17 de Março, esse modelo ganha ainda mais relevância por estar inserido em área urbana e por envolver diretamente o trabalho de mulheres que, há décadas, mantêm viva a tradição da coleta da mangaba, uma história que atravessa gerações e se confunde com a própria ocupação do território.

“Essa reserva representa muita coisa pra mim. É a minha vida, é a vida dos meus pais”, resume Maria Aliene dos Santos, presidente da Associação das Catadoras de Mangaba. Para ela, o espaço não é apenas um local de trabalho, mas um legado familiar construído ao longo do tempo. “Minha mãe veio de Pirambu, meu pai de Pacatuba, e foi aqui que eles cresceram. A gente morou em várias áreas daqui, vivendo do que a terra dava”, relembra.

Antes mesmo da consolidação da mangaba como principal fonte de renda, o território já sustentava famílias inteiras. “A gente plantava, fazia pequenos roçados, produzia beiju e ainda levava para vender no mercado. Tinha muito caju nessas áreas. Depois, a mangaba foi ganhando força”, conta. “Se for fazer as contas, são mais de 80 anos da nossa família aqui. Eu tenho 53 anos e nasci nessa área, mas antes disso meus pais já cuidavam desse lugar. Por isso a gente se considera guardiã das mangabeiras”, destaca.

Esse vínculo profundo com a terra torna ainda mais marcantes as transformações vividas ao longo dos anos. Com o avanço da ocupação urbana no entorno do bairro, vieram também as ameaças à área. “Antes, a gente vivia num paraíso, sossegado. Depois veio a preocupação. Foi como uma cena de terror pra gente, um período de muita angústia”, relata Maria Aliene.

Diante desse cenário vivenciado à época, a resposta veio na forma de organização coletiva. Com apoio do missionário Uilson de Sá e a orientação de órgãos institucionais, as catadoras criaram uma associação há mais de uma década para fortalecer a luta pela preservação do local. “A gente entendeu que precisava se organizar para proteger o que restava. Aqui é o que a gente chama de ‘pulmão de Aracaju’”, afirma Maria Aliene.

Para Emília Golzio, a Reserva Extrativista Mangabeiras reúne elementos que a tornam singular no cenário nacional, ao combinar preservação ambiental, identidade cultural e protagonismo feminino em pleno espaço urbano. “Ela é gerida por um grupo majoritariamente de mulheres, o que traz uma simbologia muito importante. Além disso, estamos falando da única reserva extrativista urbana do Brasil e da produção de um fruto símbolo da nossa terra”, destacou.

A atualização do decreto, construída a partir do diálogo entre a Secretaria do Meio Ambiente (Sema) e a comunidade, marca uma mudança significativa nessa trajetória. “Quando chegamos, elas mostraram pontos de insatisfação. Não eram ouvidas, não tinham paridade no conselho e sequer puderam escolher o nome do local”, explicou a secretária.

Como desdobramento direto das mudanças promovidas pelo novo decreto, especialmente no fortalecimento da gestão participativa, a diferença já começa a ser sentida por quem vive o cotidiano da reserva. “Antes, era tudo imposto. A gente não tinha autonomia pra decidir”, lembra Maria Aliene. “Agora, não. A gente foi ouvido de verdade. Hoje sentimos que temos voz, que nossas demandas são consideradas e respeitadas”, afirma.

Entre os avanços, está a reestruturação do conselho gestor, agora com participação paritária entre poder público e sociedade civil. “A prefeitura não decide sozinha. Tudo passa a ser deliberado em conjunto, o que reforça o caráter democrático da medida”, reforçou Emília Golzio. Outro marco simbólico é a alteração do nome da reserva, que passa a homenagear Uilson de Sá, liderança reconhecida pela comunidade. “Ele deu a vida por esse lugar, lutou muito pra preservar essas áreas. Foi uma homenagem justa, que nos emocionou bastante.”, diz Maria Aliene.

Além da governança, a nova fase da reserva projeta avanços na geração de renda. Um dos principais projetos é a implantação da Casa da Mangaba, voltada ao beneficiamento e comercialização dos produtos derivados do fruto. “A Casa da Mangaba vai permitir que tudo o que é produzido ali ganhe valor e chegue à população de forma estruturada”, explicou a secretária do Meio Ambiente.

Para as catadoras, a iniciativa representa uma mudança concreta no cotidiano e abre novas perspectivas de desenvolvimento. “A gente vive da mangaba. É o nosso ganha-pão de cada dia. Dela a gente faz tudo: bolo, licor, geleia”, afirma Maria Aliene. “Mas, sem estrutura, ficava mais difícil crescer. Com a futura implantação da Casa da Mangaba, a gente vai poder produzir melhor, ampliar a comercialização e valorizar ainda mais o nosso trabalho”, pontua.

A expectativa é que o novo espaço amplie as possibilidades de comercialização e fortaleça a cadeia produtiva, inclusive com fornecimento para políticas públicas. Paralelamente, a gestão municipal tem investido em ações de educação ambiental e integração com a comunidade do entorno. “É um trabalho de mostrar que esse espaço é importante para toda a cidade”, afirmou Emília.

Para quem vive diariamente a reserva, no entanto, o maior desafio ainda passa pelo reconhecimento e pelo respeito. E é nesse ponto que o futuro se desenha como desejo coletivo. “Eu sonho que as pessoas entendam que esse espaço precisa ser protegido por todos, não só por nós, que somos guardiãs dessa terra. Espero que aprendam a olhar para esse lugar com mais sensibilidade e respeito, compreendendo que aqui existe história, existe vida e existe um modo de viver que atravessa gerações. Cuidar desse lugar é cuidar da vida de todos nós”, reflete.

Com as mudanças, a Reserva Extrativista Mangabeiras se consolida como um território onde preservação ambiental, identidade cultural e justiça social caminham juntas. Um espaço onde passado e futuro se entrelaçam, sustentados pela resistência de quem, há várias décadas, transformou o fruto da mangabeira em sustento, identidade e projeto de vida.

Foto: Ronald Almeida/ Secom/PMA