Oportunidades na cadeia produtiva da cannabis pautam debate no maior congresso de engenharia e agronomia

Avaliado em US$ 9,47 bilhões em 2024, mercado global de cânhamo industrial deve atingir US$ 47,82 bilhões até 2033; especialistas discutiram aplicações e desafios para a produção brasileira

O potencial da cadeia produtiva da cannabis foi tema de debate na 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea), promovida pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), em Aracaju (SE). No painel “Cannabis Medicinal: da Genética ao Medicamento”, especialistas discutiram oportunidades e desafios para a produção brasileira diante da expansão projetada para o mercado global de cânhamo industrial: a estimativa é alcançar US$ 47,82 bilhões em 2033, mais de cinco vezes os US$ 9,47 bilhões de 2024.

A projeção foi apresentada pelo presidente do Instituto Ficus, Bruno Agnello Pegoraro, ao abordar as oportunidades para a engenharia. Ele destacou o crescimento e a expansão do mercado, cujo potencial industrial amplia as possibilidades de atuação para além da produção de insumos medicinais.

 “Essa nova commodity, para fins industriais, ainda carece de muitos estudos e muita conversa. Então, acho que a agronomia tem um papel fundamental nessa discussão. Vai ser um mercado muito grande, eu não tenho dúvida disso. Vem crescendo ano a ano a procura por fibras naturais.” afirma Bruno.

Entre os profissionais que acompanharam o painel na plateia estava o engenheiro agrônomo Ricardo Antonini Ayub, professor do curso de Agronomia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Ao comentar o debate, ele destacou a importância de diversificar a produção agrícola. “Toda vez que a gente abre uma cadeia de produção nova, você abre novas perspectivas de mercado, são mais empregos gerados, novos produtos, novos profissionais entrando no negócio. Então, isso é muito importante para o país. E quanto mais produtos você tem à disposição, melhor ainda. É aquela velha máxima: não bota todos os ovos na mesma cesta”, afirmou.

Da medicina à construção civil

A diversidade de aplicações foi detalhada pela pesquisadora da Embrapa Beatriz Marti Emygdio, presidente do comitê de assessoramento estratégico em cannabis da instituição. Ao apresentar a cadeia produtiva da Cannabis sativa, ela destacou o aproveitamento de diferentes partes da planta: o caule pode fornecer matéria-prima para papel e tecidos, enquanto as sementes têm aplicações na produção de óleos, alimentos, ração animal e cosméticos, as flores são utilizadas na obtenção de compostos de interesse medicinal e terapêutico, enquanto as raízes tem possibilidades diversas de uso na agricultura como absorção de CO₂ e regeneração do solo.

O consultor da Anvisa Sérgio Barbosa Ferreira Rocha destacou o potencial de cultivo da cannabis no Brasil, especialmente nas regiões Nordeste e Centro-Sul. Ele também ressaltou a versatilidade da planta, que, segundo sua apresentação, pode fornecer matéria-prima de fonte renovável para mais de 25 mil produtos. Entre os exemplos citados estão materiais para construção civil, bioplásticos e produtos voltados à alimentação e à suplementação nutricional.

O debate reuniu, assim, perspectivas sobre os usos medicinais e industriais da cannabis, relacionando as possibilidades de aproveitamento da planta às condições necessárias para desenvolver sua cadeia produtiva no Brasil.

Genética e sementes nacionais entre os desafios

Apesar do potencial, a produção brasileira enfrenta obstáculos desde o campo. Beatriz apontou a dependência de genética importada, a ausência de cultivares adaptadas às condições nacionais, fragilidades fitossanitárias e a falta de material propagativo certificado. A variabilidade da matéria-prima e lacunas regulatórias e metodológicas também foram identificadas como gargalos.

Na avaliação da pesquisadora, o país precisa desenvolver suas próprias cultivares, estruturas produtivas e produção de sementes. “O desafio não é apenas autorizar o cultivo, mas criar as condições científicas tecnológicas e regulatórias para que o Brasil desenvolva uma cadeira própria segura e competitividade com insumos canábicos. Não basta regular para permitir. É preciso regular para competir.” afirmou Beatriz.

A relação entre competitividade e acesso aos produtos finais também esteve em discussão. A avaliação apresentada no painel é que a produção nacional precisa alcançar condições que favoreçam a redução de custos para que os benefícios possam chegar ao consumidor.

Mediado por Almir Antonio Gnoatto, superintendente de Agricultura e Pecuária no Paraná do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o encontro contou ainda com Renata de Morais Souza, gerente de Produtos Controlados da Anvisa. Ela apresentou o histórico e o cenário atual da regulação da área, compondo o debate sobre os caminhos para estruturar a cadeia produtiva no país.

Texto e foto: Assessoria de Comunicação I Confea